Richard Bachman

Richard Bachman é o pseudônimo que Stephen King usou para escrever alguns romances, com duas intenções: a primeira, de descobrir se as vendagens de seus livros se davam pelo seu talento como escritor, ou apenas pela fama de seu nome ou sorte (para isso, propositalmente Stephen lançava seus livros de Bachman sempre com o menor marketing possível). A segunda, poder publicar mais livros, uma vez que de acordo com as editoras, era comercialmente prejudicial ficar inflando o mercado com vários livros do mesmo autor em um único ano (e, como sabemos, no começo de sua carreira, King gostava de publicar vários livros ao ano). O alter-ego de King é conhecido por escrever histórias cujo sobrenatural é pouco ou quase nulo, focando essencialmente nos personagens, que em 90% de seus livros estão vivendo algum drama que poderia acontecer com qualquer um (a exceção seria “Os Justiceiros”).

Existe uma outra característica nos livros de Bachman, que não vem ao caso revelar por se tratar de um spoiler, mas os leitores fiéis provavelmente adivinharão que característica é esta. Apesar disto, não é desculpa para não ler o livro, pois invariavelmente um romance de Bachman é escrito de maneira excelente. King escreveu um punhado destes livros, e mesmo após ser desmascarado, deu um jeitinho de continuar a soltar aqui e acolá alguma história de seu pseudônimo.

Como já mencionado, durante os anos 70, determinado a provar a si mesmo que suas vendagens se davam pelo seu talento e não por sorte ou fama, Stephen King criou “Gus Pilsbury”, com a intenção de usar tal nome (batizado em homenagem ao seu avô, que tinha o mesmo nome) para escrever outras histórias mais pesadas e menos “pop” do que as que já escrevia na época. Antes de lançar “Fúria”, King acabou mudando de ideia quanto ao nome que deveria usar para assinar o livro. O nome selecionado foi uma homenagem ao autor de romances de crime, Donald E. Westlake, que também possuía um pseudônimo: Richard Stark. O sobrenome Bachman, segundo reza a lenda, veio da Bachman-Turner Overdrive, uma banda que King escutava no momento em que pensava no assunto. Uma outra curiosidade é que King ainda aproveitou o pseudônimo de Westlake em 1989, quando publicou “A Metade Negra” (romance que foi dedicado à Bachman), onde a relação Stephen King – Richard Bachman refletia a de Thad Beaumont – George Stark (é claro, tirando a parte em que o pseudônimo se materializava de verdade, querendo se vingar de seu criador).

É claro que não demorou muito para que os leitores de Bachman lentamente fossem associando o autor à Stephen King, que sempre negava veementemente ser o tal. Apesar disto, como provocação, King sempre deixava algumas pistas em suas obras apontando a verdadeira identidade de Bachman. Um bom exemplo é o uso da cidade “Gates Falls”, que é fictícia, como cenário para “Fúria”, cidade esta que ele já havia usado no conto “Último Turno” do livro “Sombras da Noite”. Já em “A Maldição”, um dos personagens faz menção exatamente ao próprio Stephen King, o que pode ser tanto interpretado como uma dica, quanto como uma jogada para tentar livrar seu nome. Não funcionou.

“A Maldição” foi basicamente o livro que assassinou seu autor. Foi por causa dele que o segredo de King foi descoberto: um rapaz chamado Steve Brown, que trabalhava como balconista de uma livraria, começou a fazer as conexões que todos já faziam entre Bachman e King, porém inconformado com as negativas de Stephen, Brown resolveu cavar fundo em uma investigação que o levou à Library of Congress (Biblioteca do Congresso), localizada em Washington D.C. Lá, Brown acabou por encontrar um documento de direitos autorais que responsabilizava Stephen King pela publicação de “Fúria”. Brown tirou cópias dos documentos e os mandou juntamente com uma carta para a editora de King (que na época ainda era a Doubleday) perguntando o que deveria fazer. A resposta veio do próprio Stephen King, que telefonou para Brown para dizer que ele deveria revelar a verdade na forma de um artigo, e que estava disposto a conceder uma entrevista ao jovem, para anunciar ao mundo que Stephen King realmente era Richard Bachman. O que se seguiu foi uma conferência de imprensa onde King anunciou que Bachman havia falecido. A doença? Câncer de pseudônimo, que, de acordo com o próprio King, é um tipo raríssimo de câncer.

Tamanha é a imaginação de Stephen King, que, de brincadeira, o autor acabou por criar uma realidade para Richard Bachman, de modo que o pseudônimo adquiriu uma pseudo-biografia. O que se segue são fatos e relatos da vida do autor Richard Bachman, como Stephen King visionou:

Richard Bachman nasceu em Nova York, e, embora sua infância seja um mistério, sabe-se que Bachman serviu por quatro anos na Guarda-Costeira, e eventualmente trabalhou por dez anos na Marinha Mercante. Eis que Bachman resolveu se mudar para um lugar mais tranqüilo. O destino acabou sendo o centro rural de Nova Hampshire. Lá, ele comprou uma fazenda de gado de médio porte, e durante a noite, por sofrer de insônia crônica, Bachman escrevia suas histórias.

Bachman tinha uma esposa, seu nome era Claudia y Inez Bachman (Claudia Eschelman, após sua morte) e um filho. O filho de Bachman morreu tragicamente enquanto brincava na fazenda do pai, esgueirando-se sobre um poço e caindo nele, morrendo afogado. Segundo dizem, este evento tornou as histórias de Bachman mais violentas e sem qualquer misericórdia para com seus personagens (incluindo crianças).

Em 1982, foi detectado em Bachman um tumor cerebral na região da base de seu cérebro; foi necessária uma cirurgia bastante complicada para a retirada do tumor. Mas a morte bateu à porta de Bachman novamente, três anos mais tarde, e desta vez ele atendeu. Richard Bachman morreu em 1985 de câncer de pseudônimo, um tipo terrível de “esquizonomia”. Ele escreveu cinco romances enquanto esteve vivo, “Fúria”, “A Longa Marcha”, “A Autoestrada”, “O Concorrente”, e “A Maldição”. Ninguém pôde salvá-lo.

Falecido Bachman, Claudia se tornou viúva, e em 1994, enquanto se preparava para se mudar para uma nova casa, ela acabou por encontrar uma valiosa caixa no sótão da fazenda do marido. A caixa continha alguns manuscritos; dentre eles um romance chamado “Os Justiceiros”, e outro chamado “Blaze”. Ela os levou para Chuck Verrill, o editor de Bachman (e que, por uma estranha coincidência, também era o editor de Stephen King), e lá eles editaram os livros, de modo que pudessem ser lançados no mercado como obras póstumas.

De acordo com alguns boatos na época de sua morte, Bachman estava pensando em escrever um livro sobre um autor que sofre um acidente, sendo resgatado por uma fã psicótica que o levaria para sua isolada casa e o prenderia em uma cama, torturando-o por ele ter matado sua personagem favorita. Aparentemente Bachman teria chamado este romance de “Angústia”, ou “Misery” no original. De alguma forma, um famoso escritor de histórias de terror do Maine se apossou da ideia, lançando o livro dois anos após a morte de Richard Bachman, com seu próprio nome.

Por muitos anos comparado a Bachman, King respondeu, certa vez, quando perguntado o que achava de Richard Bachman, que: “Bachman era um sujeito desprezível, estou feliz que ele esteja morto”.

Sim, Richard Bachman está morto e enterrado, mas seu legado continua na forma dos manuscritos achados por Claudia Bachman. Cinco anos se passaram desde a publicação de “Blaze”, e os primeiros sinais de que ainda temos pelo menos mais um romance de Bachman pela frente, já começaram a aparecer. Stephen King concedeu uma entrevista dizendo que gostaria de escrever uma história sobre um detetive particular corrupto em uma cidade nublada da América, assinando o romance com o nome de sua eterna sombra: Richard Bachman. Assim concluímos que, de certa forma, Bachman continua vivo e assim permanecerá até que Stephen King não tem mais nada a dizer.