quinta-feira , 18 setembro 2014
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Rose Madder

A resenha a seguir possui spoilers do livro

Rose Madder

Rose Madder foi um romance lançado em 1995 cuja premissa já havia sido usada de forma mais leve em Eclipse Total: uma dona de casa submissa que sofre nas mãos do marido violento, e que depois descobre uma força que não tinha que a permite dar a volta por cima.

Enquanto que em Eclipse Total o sobrenatural não existia, ou era ínfimo, em Rose Madder a coisa muda de figura, o que, na minha opinião, tira um pouco da graça da história.

A história começa com Rose Daniels sofrendo um aborto após ter sido espancada por seu marido, Norman, um policial psicótico; e assim continua por mais 14 anos, até que certo dia, Rosie enxerga uma gota de sangue sua em um lençol, o que provoca uma revolução em seu interior.

Morta de medo, mas não o suficiente para continuar sob a ameça de Norman, Rosie decide fugir, levando apenas sua bolsinha e o cartão de crédito do marido. É a partir daí que a história, já interessante, começa a andar de verdade. O ponto alto do livro é a perseguição de Norman a Rose, que se instala numa cidadezinha e começa uma nova vida, com a ajuda de um recanto que acolhe mulheres como ela.

Enquanto Rose tenta se reerguer e relutantemente esquecer do marido, Norman começa sua perseguição implacável procurando pistas do paradeiro de sua esposa, e isso inclui torturar e matar gente. O vilão psicopata-lunático, que havia sido deixado de lado desde Annie Wilkes (não considero George Stark lunático) retorna aqui para alegria geral dos fãs do Mestre, e King prova mais uma vez, para quem ainda duvidava, que consegue escrever personagens loucos e perigosos com muita maestria.

Entretanto, diferentemente das aventuras de Annie Wilkes e Paul Sheldon, aqui temos o elemento sobrenatural na forma de um quadro misterioso cujo título é “Rose Madder” (que também é o nome de uma tonalidade do vermelho). O que poderia ser uma história incrível de perseguição, esbarra no fantástico quando Rosie é “chamada” pelo quadro dentro de uma loja de penhores e o compra.

O quadro apresenta uma moça de costas, usando um vestido vermelho (da tonalidade rose madder) e um bracelete de ouro, olhando para um templo grego ao longe. Quando a ameaça de Norman aumenta, Rosie começa a perceber que o quadro não é comum, e não demora muito para a mesma adentrar àquele mundo onde vivem Rose Madder (a moça de vermelho) e sua lacaia Dorcas, que dão a Rose uma missão muito da bizarra.

Se por um lado o sobrenatural estraga a evolução do suspense natural, por outro apronta um dos melhores finais concedidos a um vilão criado por King, e por tabela cria um reflexo entre o vilão que habita o mundo de Rose Madder e Dorcas, e o próprio Norman Daniels.

Rose Madder é cheio de personagens e eventos memoráveis, em especial a parte em que Gert Kinshaw (que acho que a maioria de vocês imaginou como Queen Latifah) dá um pau em Norman e ainda mija em cima do “coitado”. Outra personagem a ficar de olho é Cynthia Smith (a quem Gert salva de Norman), que apesar de aqui ter um papel pequeno, reaparece em um dos romances seguintes de King, Desespero, em uma papel bem mais significativo.

Norman também é um vilão memorável. O escroto utiliza de suas aptidões de policial para refazer todo o caminho percorrido por Rosie (embora às vezes o modo como ele chega à conclusão de um raciocínio beire ao fantasioso), e não poupa quase (o quase fica por conta da Dona Kinshaw, já mencionada acima) ninguém que ouse ficar no seu caminho para falar bem de perto com sua esposa. Outro traço interessante de Norman é o modo como ele encara o mundo. Para ele, todas as mulheres são piranhas, e todos os homens são bichas (o que deve ser uma dica que ele deve ter possuído pais problemáticos nesse sentido). Isso por si só já garante umas boas risadas quando Norman pensa ou fala consigo mesmo. Enfim, ele é doido, inteligente, badass… é um vilão com V maiúsculo.

Rose é outro lado da moeda; uma personagem que começa submissa, e que com o virar das páginas vai se tornando cada vez mais forte e feliz longe do marido (não que essa felicidade vá durar muito, pois é ÓBVIO que Norman a acaba encontrando). Um ponto bastante original, que não influi muito na história, mas que gostei bastante, foi colocar Rose como narradora de audiobooks; eu já li pouco mais de 50 romances de King e esta é a primeira vez que me deparo com uma profissão tão diferente e original concedida a um de seus protagonistas (ou mesmo de seus personagens em geral), sempre fui acostumado pelo Tio King com protagonistas escritores, médicos, professores. De qualquer forma, Rose fica mais forte, conhece um rapaz de boa índole e recomeça a viver. Tudo isso vai aprontando o palco para o que será mais tarde seu duelo final com Norman Daniels.

Como eu disse, eu não fui muito com a cara do aspecto sobrenatural do livro, e tenho certeza absoluta que o livro teria funcionado perfeitamente sem isso (e talvez ficasse até melhor). Se não fosse pelo duelo final entre Rosie e seu marido, eu teria desprezado completamente a inserção do gênero na história.

Outra coisa que detestei foi o epílogo. Completamente desnecessário, King poderia ter terminado o livro no último capítulo, e creio que a história teria terminado docemente. Mas o epílogo aconteceu, e ele é tão bizarro e sem sentido (Rose Daniels e Rose Madder aparentemente se tornam a mesma pessoa e Rosie acaba “contraindo” a fúria de Madder, e tem que aprender a viver com isso e se controlar, caso contrário provavelmente esquartejará todos que conhece e ama — sim, eu tampouco entendi direito) que me deixou triste ao fechar o livro, afinal de contas suponho que essa seja a sensação que qualquer um tenha a ler uma história super interessante e bem construída e narrada, e que no final não só possui um fim ruim, mas completamente desnecessário e que poderia ser perfeitamente cortado do material original.

Enfim, apesar de tudo, Rose Madder é um dos melhores trabalhos de King dos anos 90, e até mesmo de sua carreira, é um livro repleto de qualidades (e de alguns defeitos) que merece ser lido por aqueles apaixonados por uma boa dose de suspense e personagens excelentemente construídos; vale muito a pena. Mas repito, por não saber a hora de parar, King nos privou de um romance que poderia ter sido dez vezes melhor.

Artigo originalmente escrito em: 13/09/2012

Autor: Boni